Desafios e caminhos para a restauração no sudeste do Brasil

Recentemente acompanhamos o surgimento de grandes startups focadas na viabilização da restauração de florestas através da comercialização de créditos de carbono. Essas Startups são empresas que se propõe a realizar restauração em escala e para isso utilizam um modelo onde compram grandes áreas degradadas de pastagem e as transformam em florestas, criando grande latifúndios de carbono. Reconhecemos que esse modelo é valido e importante para enfrentar a crise climática que estamos enfrentando, porém ele faz sentido para paisagens onde a terra é barata e a estrutura fundiária predominante é de grandes propriedades.

Nossa região de atuação inicial no Sul de MInas

Entretanto, essa abordagem enfrenta desafios quando aplicada a paisagens do sudeste do Brasil, caracterizadas por intervenções humanas seculares, mosaicos de propriedades e usos da terra, além de concentrarem a maior parte da nossa população. Analisando esses fatores algumas dores surgem diante deste modelo:

  • Que o pouco estoque de carbono que existe nessas paisagens, contidos nos fragmentos florestais, está sendo liberado para a atmosfera através de um longo e quase imperceptível processo de degradação. A emissão de GEEs por conta de degradação dos fragmentos de mata atlântica é significativa e subestimada nos inventários nacionais; 
  • Que o modelo mais aceito para a geração de créditos de carbono hoje privilegia grandes projetos e termina por excluir pequenas propriedades e proprietários, que possuem a necessidade de se adequar a legislação, mas possuem menos acesso a recursos para realizá-las;
  • Que essas paisagens estão se esvaziando cada vez mais, através de um processo de migração da sua população para as cidades, por falta de valorização e de oportunidades de geração de renda. 

Uma solução regional

Assim a Ilhas de Vidas surge com o propósito de dar escala para a restauração no sul de Minas Gerais e entendendo que “dar escala” em uma paisagem heterogênea como a nossa requer criatividade, para enfrentar simultaneamente os diferentes desafios que se colocam. Para isso entendemos que: 

  • Precisamos trabalhar em propriedades de terceiros, e não excluindo nenhum tipo de proprietário (Pequeno, médio, grande, agricultor familiar, assentamentos); 
  • Entender as dores desses proprietários e o que os leva a querer ou não melhorar as práticas de conservação e de produção na sua propriedade; 
  • Trabalhar os pequenos proprietários em clusters de maneira a viabilizar operações de implementação e dar escala à restauração e acesso ao mercado de créditos de carbono, hoje restrito a grandes projetos florestais; 
  • Trabalhar na área agrícola dessas propriedades de maneira a incrementar o estoque de carbono no solo e melhorar a qualidade da paisagem, fornecendo assistência técnica para projeto de agricultura e pecuária regenerativa e de baixo carbono e fomentando e investindo em sistemas agroflorestais; 
  • Entendemos também que a melhoria da paisagem vai melhorar o fluxo gênico da fauna e da flora e contribuirá para a melhoria dos fragmentos de espécie nativa. Ainda assim esses remanescentes irão precisar de ações de manejo para reverter o processo de degradação e acelerar a absorção de gases do efeito estufa, transformando-os de emissores para sumidouros de carbono.

Para além do impacto ambiental positivo acima descrito entendemos que temos o potencial de gerar um impacto social significativo, uma vez que uma das nossas premissas é desenvolver a cadeia da restauração na escala regional utilizando os projetos da Ilhas de Vida como fomentadores e incubadores de empresas regionais e de base comunitária fornecedoras de mão de obra, insumos e serviços técnicos necessários para dar escala a restauração. Nosso objetivo é usar a ilhas de vida como um fomentador desses negócios para que estes, em um curto espaço de tempo, estejam aptos para atender demandas diversas relacionadas ao tema e não só a Ilhas de Vida.

Próximos passos para viabilizar a restauração na paisagem do Sul de Minas

Nosso próximo passo é realizar um diagnóstico territorial nos municípios da região. Esse levantamento nos permitirá estimar o estoque de áreas com potencial para restauração, entender onde elas estão, qual o perfil dos proprietários e quais os desafios e oportunidades específicos de cada contexto. Com essas informações em mãos, poderemos traçar uma estratégia territorial de restauração coerente com a realidade da paisagem — marcada por fragmentação, diversidade de usos da terra e uma predominância de pequenas e médias propriedades.

Nosso objetivo de longo prazo é desenvolver uma metodologia de créditos de carbono voltada especificamente para fragmentos da Mata Atlântica. Esse protocolo busca viabilizar o financiamento do manejo ativo e do enriquecimento desses remanescentes — que hoje, em sua maioria, se comportam como emissores líquidos de carbono, devido ao processo contínuo de degradação. Com intervenções adequadas, acreditamos que esses fragmentos podem recuperar sua viabilidade ecológica, retomar sua função de sumidouros de carbono e fortalecer os serviços ecossistêmicos da paisagem.

Essa é a aposta da Ilhas de Vida: transformar a restauração em um projeto possível, desejável e financeiramente viável para os territórios mais desafiadores — mas também mais estratégicos — da Mata Atlântica.

Texto escrito por Pedro Barral

Mais Posts

en_USEnglish